• Maria Eduarda Barreto

Arte em tempos de quarentena

Eu não sei o quanto mudou o relacionamento das pessoas de 1918 com a arte quando foram acometidas pela gripe espanhola. Mas imagino que, como em 2020, ela foi item importante para manter a esperança que o subjetivo carrega em tempos tão pesados para a humanidade. 


Foto: Jewish Quartely

Quer previsão para o futuro do consumo? Olhe para dentro.


Não tem como negar que a forma que nos relacionamos com o consumo e a escada de prioridades está mudando com o passar dos dias em isolamento. Imagino que para cada ser humano isso ocorra em uma escala diferente, vale lembrar que somos tipos diferentes de consumidores espalhados por aí (@carvalhando tem vários insights sobre o futuro do nosso consumo, vale checar), mas o fato é que pequenas mudanças por dia vão transformar o cenário geral agora e deixarão seus resquícios.



A história não nos diz o porquê escolhemos uma determinada direção, mas nos mostra que apenas uma decisão pode mudar o rumo de muitas coisas. E as decisões que tomamos hoje em casa, como assistir a lives mesmo podendo ouvir o artista no spotify sem propagandas, incluir no seu pacote de apps uma carteira digital para atos solidários e outras transferências, comprar tapete de yoga ao invés de “blusinhas” no e-commerce, vão alterar a forma que nos relacionamos com as marcas e nosso apetite para adquiri-las e como adquiri-las.  


Arte em um mundo de consumo ou o consumismo de arte?


Chove lá fora agora, meus pais assistem Netflix na sala e eu dou detalhes de uma dessas lives que queremos patrocinar para o meu chefe via WhatsApp. Estamos isolados, assim como você (provavelmente). Evitei escrever, porque há quase dois meses que me dedico 100% a sentir. Não era meu papel falar sobre pandemia, até ontem, mas gosto de brincar que o meu papel é falar sobre arte em um mundo de consumo. Sou nova nessa história de escrever, mas sei que quando um escritor se importa, ele senta e escreve.

Não pretendo discorrer como uma grande curadora do tema, mas com a inocência de quem aprecia. Ao contrário da louça suja que parece ter se multiplicado, arte, minha gente, é o que nos mantém em casa com o mínimo de sanidade.




Eu não sei se você, que tem o privilégio de estar em casa, se absteve de livros, filmes, shows pelo youtube, fotografias, series, memes no Instagram, músicas e criações diversas, mas a arte de todo o tipo tem me salvado por aqui e me ajudado a me conectar com todo o resto, em um momento em que precisamos estar distantes.


É ela que entretém e explica o mundo, de uma forma que eu ou qualquer outra pessoa possa ser tocada ao mesmo tempo e é com ela que eu valorizo as belezas escondidas de uma temporada que parece repetir o mesmo enredo dia após dia, mas que é parte de uma grande obra. Talvez, o consumo excessivo da arte é o único tipo de consumismo saudável que vamos conhecer.


Ops! Virou tudo pop art!


Arte como tecnologia de auto-conhecimento




E se arte é terapia pessoal e intransferível, durante uma quarentena social, não pretendemos participar das sessões sozinhos. A arte quebra as dimensões de espaço e está além do nosso novo vocabulário: distanciamento, isolamento, saudade, confinamento e, por fim, o medo de perder o que está rolando lá fora (famoso FOMO), substituído pelo medo de perder alguém aqui dentro.


Então a arte tem me salvado sim, e é um tipo de colete salva-vidas disponível para todos. Uma forma de nos conectar que virou item de necessidade básica acima de roupas, carros, viagens e bens de consumo que perderam um pouco o sentido neste momento, mesmo que você ainda não tenha percebido.   


Arte como tecnologia humana de conexão




E como o barco não é só meu e seu, a internet virou um hub de entretenimento (e não se esqueça que esse é um dos propósitos da arte). Existe uma chance grande de você se distrair com o volume de conteúdo e publicidade, mas ela pode ser ponte para novas descobertas e experiências. Eu, que era fã do “do it yourself”, aprendi que “do it together” é muito mais interessante, estimulante e terapêutico.


Por causa da quarentena e por ajuda da internet veio ainda mais à tona que o processo de criar, desde o medo ao êxtase provocado pela arte, é melhor quando atravessado com alguém. Trancados em casa, sem as distrações e as vulnerabilidades antigas, aceleramos o novo renascimento da criatividade feat colaboração.


E, por fim, arte como tecnologia de venda de uma ideia ou a própria arte como produto


Há os que só querem assistir series juntos e assim surgiu a Netflix Party, que permite sincronizar você e o seu amigo à distância e simular uma ida ao cinema juntos cada um em sua casa.



Outros, nem ousavam sonhar antes, mas descobriram que querem ver o seu pedido sendo preparado ao vivo no Instagram pelos chefs e participar de um leilão pela sua entrega. Ou, com o tempo em casa, querem dar o toque final ao prato do seu restaurante favorito na sua própria cozinha ao invés de só receber tudo feito pela entrega.


Eu e mais um bando de inquietos acompanhamos toda a semana um sarau virtual com artistas de todos os tipos curados pelo diretor de cinema @gilpinna, que acredita que a arte pode ser apreciada em diferentes formatos e mexer com a alma de qualquer indivíduo.

Já para os mais comprometidos na terapia é preciso criar (com mais alguém). Eu que há anos namorava aprender a técnica da aquarela, só criei coragem suficiente ao me juntar em um projeto diário com minha melhor amiga que mora no Canadá via WhatsApp.



Talvez para você nada disso se classifique como arte, mas me permita inserir um conceito mais amplo à palavra. O fato de estarmos isolados, só nos fez buscar alternativas para estarmos juntos e arte é tudo aquilo que permite a interpretação de quem somos em coisas que não são a gente, por assim dizer. A necessidade básica de uma quarentena é a interpretação da vida: ou você se entende nessas quatro paredes com os poucos que lhe foi dado o direito de convívio ou você enlouquece. Um brinde aos artistas e aos loucos.


No novo normal você vira artista, ouve jazz e toma um vinho (ou uma cerveja) tudo ao mesmo tempo.


Isso acontece com a gente, isso acontece com as marcas. Quantas estão no último suspiro e quantas estão só tomando o folego para se reinventar. 


Foi assim que nasceu um projeto de duas empresas de entretenimento, que ressignificaram o que é consumir pintura e música durante a quarentena. E minha amiga, a Fernanda que já apresentei aqui, é um dos lados dessa ponte. Ela é o lado das tintas. 



Antes da quarentena o seu negócio Paint & Drink era (e voltará a ser) uma oficina de pintura itinerante que acontece cada vez em uma galeria de arte diferente em São Paulo. Se engana quem acha que esses encontros são para profissionais econnoisseurs da arte, pelo contrário, a proposta é justamente aproximar pessoas sem experiência artística, mas que tenham interesse pelo o tema e estejam procurando uma atividade criativa e relaxante. 



E o outro lado está o Grupo Cuco de entretenimento com a mesma linha de valorização cultural e veia artística com a Jazz Mansion. A primeira edição da festa foi em 2016 em uma mansão da década de 1920 na Vila Mariana. O objetivo da festa? Curtir um bom jazz, com bons drinks em boa companhia. Em abril de 2020, a Jazz Mansion comemoraria a sua vigésima segunda edição, se não fosse a pandemia atual. 

“O encontro foi espontâneo e se reinventar juntos através do Paint & Jazz foi um movimento natural. “Queríamos proporcionar uma experiência nova, imersiva e interativa ao mesmo tempo. Já tínhamos migrado o nosso modelo de shows de jazz para o digital, com lives todo final de semana, pois somos, na essência uma empresa de eventos, somos apaixonados por música! Mas o Paint & Jazz é diferente. Ele tem interação, tem atividade artística, tem shows de jazz e o mais incrível, tudo em tempo real respeitando as restrições da quarentena. Com o Paint & Jazz, trouxemos o melhor dos dois mundos para dentro da casa das pessoas”   Dennis Vianêz head de marketing da Cuco.

Hoje os dois estão juntos criando uma experiência ainda mais poderosa para as pessoas se conectarem consigo e se desconectarem do mundo juntas com a combinação de dois tipos de artes. Se esse era só um nicho de mercado, a tendência é que vire pop com o aumento do consumo por autoconhecimento e por experiências que nos tragam novas sensações. Parece que é isso que precisamos, no virtual ou no calor do olho no olho. 


Por ora, o Paint & Drink não é mais uma oficina presencial e a Jazz Mansion não é mais uma festa de pele na pele, mas criaram um produto que reforça suas credenciais e que continua a fazer arrepiar mesmo à distância. Perceberam que é momento de ressignificar o papel da arte no nosso cotidiano e me arrisco a dizer que é uma dobradinha que continuará pós pandemia.



Se você também foi tocado por essa inquietação, procure agora sua caixa de emergência no armário. O que você tem de ferramentas que você pode juntar com o outro para conectar pessoas através da arte que você coloca no mundo? Mesmo isolados, não precisamos estar sozinhos.Mesmo em tempos de pânico, não precisamos abrir mão do deleite que a arte pode nos proporcionar.Ela pode ser também o seu colete salva-vidas no que significa, como negócio e/ou como consumidor, seu“novo normal”. 


Sobre o autor

Maria Eduarda Barreto é estrategista de marcas e escreve sobre o delicado encontro entre arte & business. Você pode conferir esse e outros conteúdos no seu blog e nas redes sociais.


instagram: @mebarreto

linkedin: Maria Eduarda Barreto

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