A história brasileira no Montreux Jazz Festival

Atualizado: há 3 dias

O mais importante festival de jazz do mundo tem um vasto espaço destinado à música brasileira desde 1978, privilégio que nenhum país conquistou por tanto tempo

Foto: Divulgação/Montreux Jazz Festival 2018

Antes de tentar entender o que é o Montreux Jazz Festival você deve esquecer tudo que conhece sobre festivais de música e seus formatos que acabaram virando uma receita de bolo (o que não significa que a gente não goste de bolo).


Mas quando se trata de MJF uma coisa é certa, é uma experiência impossível de se replicar. O festival se mantém como referência há mais de 50 anos, com duração de 16 dias e uma programação que reúne o melhor da música mundial, entre lendas e revelações.


O tímido pórtico de entrada do festival esconde a grandiosidade por trás do evento. Foto da edição de 2019
Edição cancelada pela primeira vez em 50 anos

A edição de 2020 foi cancelada por conta da pandemia. Mas tive a oportunidade de conhecer a última edição do festival em 2019, e reuni aqui histórias e reflexões sobre o evento que é uma das maiores inspirações para construção da atmosfera da Jazz Mansion desde nossa primeira edição.

O pôster da 54ª edição do Montreux Jazz Festival foi assinado por JR, famoso por suas colagens monumentais.

Quando eu escrevo que o festival reúne ‘o melhor da música mundial’ não é exagero. Assistir um show em Montreux é a oportunidade de presenciar a história da música sendo escrita. Foi no palco do festival que Nina Simone se apresentou em 1976, criando um de seus shows mais históricos, com momentos de riso e tensão, desde parar o show para ordenar uma espectadora se sentar, até ficar imóvel por alguns minutos após os aplausos. Cenas eternizadas no documentário “What Happened, Miss Simone?” da Netflix. Assista aqui.

Seria injusto tentar listar os maiores nomes da música que já passaram por lá, pois por maior que seja essa lista, sempre faltará alguma lenda. Mas vale a tentativa para destacar os clássicos Miles Davis, Aretha Franklin, Ella Fitzgerald, David Bowie, Elton John e Stevie Wonder, além dos recentes Radiohead, Kendrick Lamar, Lizzo e Lady Gaga. Sem contar a inspiração para um dos maiores clássicos do rock, ‘Smoke on The Water’.

Mas, você tem noção da história brasileira no festival?

Gilberto Gil colocou o primeiro pézinho brasileiro por lá em 1978, não apenas com um show musical impecável, mas dando show de simpatia e interação com o público, conversando em inglês com domínio da língua tão perfeito quanto àquele que nos impressionamos de ver em Anitta no início de sua carreira internacional.

Gil ainda é o artista que mais se apresentou no festival, com 12 apresentações no currículo. Mas por lá já passaram também Elis Regina, João Gilberto, Emicida, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Jorge Ben, Beth Carvalho e Ivete Sangalo. Até o grupo ‘É O Tchan’ já se apresentou por lá, o que gerou críticas inevitáveis.


Eu enxergo essa miscelânia como a melhor tradução do que é o jazz. Sem a menor pretensão de definir o que é esse estilo que nos uniu fazendo você começar a ler esse artigo, trago uma das frases de um dos maiores jazzistas atuais, Robert Glasper:

‘A tradição do jazz é que ele sempre muda’
Robert Glasper. Foto: Todd Cooper.

Seu nascimento marginalizado, o ritmo sincopado e o improviso, são algumas das características do jazz que justifica o apoio à diversidade musical sem barreiras.

Fazer um festival de jazz apenas com jazz é parar no tempo, é ir contra o que o próprio estilo prega. Mas isso é uma outra conversa.

Marco Mazzola. Foto: Divulgação

Marco Mazzola, produtor musical, intermediou a aproximação com Claude Nobs, idealizador do Festival, e deu início a história brasileira por lá. Nenhum outro país teve o privilégio de estar no LineUp do festival por tanto tempo quanto o Brasil.

‘Funky Claude’ (apelido que ganhou após a história de ‘Smoke on the water') sempre exaltou a música brasileira:

"Não me canso de música brasileira, quero sempre mais. Vou tentar assistir a todos", diz Nobs em entrevista ao G1 na edição de 2012
Claude Nobs. Foto: Lionel Flusin - Montreux Jazz Festival Foundation

Em entrevista à Marcelo Monteiro, no G1, Claude Nobs conta:

“Meu amigo, André Midani, era diretor da WEA no final dos anos 70. Em 1977 e 1978, ele me convidou para organizar dois festivais em São Paulo. Chamei vários artistas brasileiros que eu já tinha conhecido no Midem (encontro mundial de empresas ligadas à música, em Cannes, realizado dede 1968) e alguns americanos. Midani me colocou em contato com artistas como Elis Regina, Gilberto Gil e muitos outros. Até hoje, lembro o show da Elis como um dos melhores momentos do festival.

Assista:

Ivete Sangalo em 2005, com o pé engessado, fez um show monumental, digno de Ivete e cita a importância de Marco na sua carreira, onde acaba dando uma lição de moral em alguém da plateia causando uma situação bem engraçada no seu show no Festival, assista no 01:01:37 deste vídeo. Ivete ainda fez um cover de Alicia Keys pra te deixar de queixo caído com sua versatilidade:

Uma das minhas apresentações prediletas de brasileiros por lá é de Beth Carvalho em 87, mais especificamente com o clássico ‘Andança’, que dá pra ouvir no repeat o dia inteiro:

E se você acha que a presença brasileira no festival parou, confira o espetáculo que Amaro Freitas e Diego Figueiredo fazem com Christian Scott na última edição em 2019:

O palco 'Music In the Park'

O festival conta com dois terços da programação gratuita. São 16 dias seguidos de programação com incontáveis atividades das 15h – 04h. O único ingresso que comprei foi para o show do Tom Jones, afinal os ingressos são caríssimos e em franco suíços. Estávamos no mood economia, então a rotina era comprar bebida no supermercado e ir assistir os shows gratuitos do palco ‘Music In The Park’.

Para ter noção do nível dos shows oferecidos nesse palco, em 2012 Emicida se apresentou por lá:

Esse palco também nos possibilitou viver uma história linda com uma cantora brasileira que se apresentava por lá no nosso último dia de festival.

Da Cruz Band. Foto: Dennis Vianêz

Mariana Da Cruz se mudou para a Suíça há 14 anos e começou a sua carreira musical por lá. Como se fosse combinado, estávamos próximos ao palco ‘Music In The Park’ e finalmente ouvimos português nas caixas de som.

Com um som original que mistura música brasileira, ritmos africanos e música eletrônica, Da Cruz carrega ativismo em suas letras, e eu e meu sócio que estávamos na plateia fomos os únicos a acompanhar o ELE NÃO de Da Cruz no show.

Depois de curtir a noite com aquele som ‘de casa’, o Instagram nos uniu após uma marcação, o papo começou e de repente ela estava fazendo um tour conosco por Berna, capital da Suíça, indo a pé por todos os seus cantos, encontrando diversos amigos pela rua e ostentando seu swiss-german (dialeto alemânico falado em Berna) perfeito, contando sobre aquela realidade tão distante da nossa e sobre sua missão na música.

Da Cruz comentou também sobre a última visita que havia recebido. Liniker estava fazendo sua turnê pela Europa e conheceu Da Cruz, que há poucas semanas havia feito o mesmo roteiro que a gente acompanhado da anfitriã.


Festivais em geral são carregados de magia e histórias incríveis.


Encerro esse artigo sobre a presença brasileira no MJF com gosto de quero mais. Conhece o MJF? Conta pra mim a sua história no festival: dennisvianez@grupocuco.com


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