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A Copa do Mundo do Jazz: Como o estilo se desenvolveu nos países participantes da competição

Atualizado: 19 de jul.


Registro histórico de 1966 em Caxambu (MG), onde Pelé aparece tocando um violão ao lado de Garrincha e do jogador Ivair durante a preparação para a Copa do Mundo.


Hoje acontece a final da Copa do Mundo com um gostinho mais amargo, afinal aquela sensação de alegria do começo já acabou faz tempo, enquanto fomos desmamando da rotina de jogos e lembrando que a vida estava aos poucos voltando ao normal.


Eu não sei vocês, mas nenhuma seleção que eu torci venceu nessa Copa. Brasil, Cabo Verde, Egito, Portugal. Essa Copa me obrigou a torcer até pra Inglaterra e Suíça, sem sucesso.

Então me rendi de uma vez e vou torcer pra Argentina nessa final de hoje. Se você não suporta nossos vizinhos, talvez aceite um pouco melhor quando eu recomendar alguns jazz argentinos nesse texto aqui.


Quem acompanha nossas publicações sabe que a ideia era fazer uma edição da JAM pra cada país ou grupo de países, mas o lançamento do nosso festival acabou mudando um pouco os planos. Portanto nessa edição vou concentrar o conteúdo principal de cada um aqui, com leituras recomendadas pra quem quiser se aprofundar.



🇦🇷 Argentina e 🇪🇸 Espanha — As Finalistas


Argentina

Quando Piazzolla voltou de Paris em 1955 com o tango novo que havia criado, os músicos tradicionais de Buenos Aires se recusavam a tocar com ele. Os donos de milongas fechavam as portas quando ele chegava. Um crítico escreveu que ele havia 'assassinado o tango.' Piazzolla respondeu que havia apenas acordado o morto. Hoje o tango nuevo é estudado nos conservatórios de jazz do mundo inteiro.


🎵 Clássico: Astor Piazzolla — Libertango (1974) 🎵 Moderno: Escalandrum — Landrú (2010)



Espanha

Miles Davis era obcecado com Paco de Lucía. Em 1960 gravou Sketches of Spain porque ficou fascinado com a lógica harmônica do flamenco. O flamenco usa modos em vez de acordes tradicionais, exatamente como o jazz modal que ele estava inventando. A mesma coisa chegando por caminhos completamente diferentes.


🎵 Clássico: Paco de Lucía — Entre Dos Aguas (1976) 🎵 Moderno: Chano Domínguez — Hecho a Mano (2010)




🇧🇷 Brasil


Em 1961, Miles Davis ouviu uma roda de samba em Copacabana e ficou em silêncio por alguns minutos. Depois disse: 'Esses caras inventaram outra coisa.' O jazz brasileiro é muito maior do que a bossa nova. Johnny Alf veio antes de tudo isso. Jobim foi ouvi-lo antes de criar a bossa nova. Hermeto Pascoal gravou com Miles. Amaro Freitas tocou no Carnegie Hall com maracatu e Fats Waller na mesma frase.


🎵 Clássico: Johnny Alf — Rapaz de Bem (1958) 🎵 Moderno: Amaro Freitas — Saci, Yb (2023)




🇮🇷 Irã


Essa é a história mais pesada da série. O musicólogo Hafez Modirzadeh descobriu que a terceira nota da escala shur persa é quase exatamente o mesmo intervalo da blue note do blues americano. Em 1977 havia clubes de jazz em Teerã. Em 1979, depois da revolução islâmica, o jazz virou crime. Músicos foram presos. Discos destruídos. Sobreviveu na clandestinidade e na diáspora.


🎵 Clássico: Viguen — Cheshmaye Siyahe To (1968) 🎵 Moderno: Hafez Modirzadeh — In Chromodal Discourse (2012)




🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿 Inglaterra e 🇫🇷 França


Inglaterra

Em 2023 o Ezra Collective venceu o Mercury Prize, o prêmio mais importante da música britânica, com um álbum de jazz. A primeira banda de jazz a ganhar o prêmio em toda a sua história. A geração que criou isso cresceu ouvindo sound system jamaicano em Brixton e afrobeat nigeriano em casa. O encontro produziu a cena de jazz mais vibrante do mundo agora.


🎵 Clássico: Ronnie Scott's — o clube fundado em Soho em 1959 🎵 Moderno: Nubya Garcia — Nubya's 5IVE, Source (2020)



França


Josephine Baker nasceu em St. Louis, não podia entrar em restaurantes pela porta da frente. Em 1925 foi a Paris com uma trupe de jazz e nunca mais voltou a morar nos EUA. Tornou-se a artista mais bem paga da Europa, espiã da Resistência Francesa e, em 2021, a primeira mulher negra a entrar para o Panteão francês.


🎵 Clássico: Michel Petrucciani — Brazilian Like (1994) 🎵 Moderno: Youn Sun Nah — Same Girl (2010)




🇸🇳 Senegal e 🇬🇭 Gana


Senegal

A palavra 'jazz' pode ter origem wolof. No idioma wolof do Senegal, 'jass' significa agir fora do esperado, improvisar, surpreender. Se for verdade, o jazz nem o nome é americano.


🎵 Clássico: Youssou N'Dour — 7 Seconds (1994) 🎵 Moderno: Didier Awadi — Présidents d'Afrique (2011)


Gana

Ebo Taylor foi a Londres nos anos 60 pra estudar música. Conheceu Fela Kuti por lá. Voltou pra Acra porque não queria ser estrangeiro em nenhuma cidade. Morreu em fevereiro de 2026, aos 90 anos. Foi o último dos grandes.


🎵 Clássico: Ebo Taylor — Love and Death (1977) 🎵 Moderno: Worlasi — Harmattan (2015)




🇲🇦 Marrocos e 🇪🇬 Egito


Marrocos

Randy Weston chegou ao Marrocos em 1967 numa tournê que passou por 14 países africanos. Ficou. Abriu um clube de jazz em Tânger chamado African Rhythms. Os ritmos da música gnawa eram os mesmos do jazz. Não parecidos. Iguais.


🎵 Clássico: Randy Weston — African Cookbook (1969) 🎵 Moderno: Majid Bekkas — Gnawa Jazz (2008)



Egito

Salah Ragab era general de brigada do exército egípcio. De dia assinava ordens militares. De noite tocava bateria jazz. Em 1983 Sun Ra foi ao Cairo gravar com ele. O álbum Jazz in Nukbia é uma das gravações mais estranhas e mais bonitas que o jazz já produziu.


🎵 Clássico: Salah Ragab — Jazz in Nukbia (1983) 🎵 Moderno: Islam Chipsy — Electro Chaabi (2016)



🇯🇵 Japão


O Japão é o maior mercado de jazz do mundo depois dos EUA. Os japoneses preservaram gravações raras de pequenas gravadoras americanas dos anos 50 que faliram. O jazz americano existe em parte porque o Japão quis. Em Shimokitazawa, há mais lojas de disco de jazz por quadra do que em qualquer bairro do mundo.


🎵 Clássico: Toshiko Akiyoshi — Long Yellow Road (1974). 14 indicações ao Grammy. Zero estatuetas. 🎵 Moderno: Hiromi Uehara — Place to Be (2009)




Os que ficaram pelo caminho

Esses países mereciam edições completas. Ficam aqui registrados com o essencial.


🇨🇴 Colômbia — Lucho Bermúdez montou uma big band que tocava cumbia com arranjo de jazz nos anos 40. A Colômbia tinha jazz antes de ter televisão. 🎵 Lucho Bermúdez — Cumbia Currulao (1957) / Antonio Arnedo — La Ventana de Piedra (2010)


🇲🇽 México — Antonio Sánchez tocou com Pat Metheny por 12 anos e ganhou o Oscar por Birdman com bateria solo. 🎵 Agustín Lara — Granada (1932) / Antonio Sánchez — Birdman Suite (2014)


🇧🇪 Bélgica — Django Reinhardt era romani, nunca aprendeu a ler. Um incêndio queimou sua mão esquerda. Criou o jazz manouche com dois dedos. 🎵 Django Reinhardt — Minor Swing (1937) / Aka Moon — Anthracite (2002)


🇵🇹 Portugal — Chet Baker chegou a Lisboa em fuga. O fado e o jazz têm a mesma matéria: a nota que não resolve, a beleza que dói. 🎵 Chet Baker — Almost Blue (1988) / Mário Laginha — Essência (2008)


🇹🇷 Turquia — Miles Davis disse que a música turca e o jazz haviam chegado ao mesmo lugar por caminhos diferentes. 🎵 Okay Temiz — Oriental Wind (1979) / İlhan Erşahin — Istanbul Sessions (2011)


🇿🇦 África do Sul — Duke Ellington ouviu Abdullah Ibrahim por acidente num clube em Zurique. Pagou do próprio bolso a gravação do primeiro álbum dele: 'Esse homem é o futuro do jazz.' 🎵 Abdullah Ibrahim — Mannenberg (1974) / Nduduzo Makhathini — Modes of Communication (2021)


🇨🇩 Congo — Franco TPOK Jazz liderou a mesma banda por 35 anos. Quando um músico queria sair, ele contratava outro e os dois ficavam juntos até o primeiro mudar de ideia. 🎵 Franco TPOK Jazz — Mario (1985) / Baloji — Colonie Belge (2008)


🇦🇺 Austrália — O jazz chegou pelos marinheiros americanos nos anos 1920. Em menos de dez anos havia jazz em Sydney antes de muitas cidades europeias. 🎵 Don Burrows — In Concert (1974) / James Morrison — The World Is Yours (2020)


🇳🇴 Noruega — A ECM Records: silêncio faz parte da música. Officium, saxofone soprano com canto gregoriano, não devia funcionar. Vendeu dois milhões de cópias. 🎵 Jan Garbarek — Officium (1994) / Nils Petter Molvær — Khmer (1997)


🇩🇪 Alemanha — Em 1975 Vera Brandes tinha 17 anos quando organizou o show de Keith Jarrett em Colônia. O piano era defeituoso. Jarrett recusou. Vera convenceu. Às 23h30 ele subiu. Tocou por uma hora e sete minutos. 🎵 Keith Jarrett — The Köln Concert, Part I (1975) / Michael Wollny — Weltentraum (2014)




A Copa termina hoje.


O jazz que a gente descobriu nesses países não vai a lugar nenhum.

Cada um deles pegou uma música que chegou de fora, ouviu com atenção, misturou com o que já tinha, e devolveu algo que New Orleans nunca teria feito sozinha.


É isso que o jazz é. É isso que a música faz quando as portas ficam abertas.


Dennis Vianêz • Idealizador Jazz Mansion

 
 
 

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