Cayuma marca a estreia do seu primeiro single autoral com a mistura do R&B Tropical; ouça "Abayomi"

O músico carioca, que lançou nesta sexta (18) sua primeira música de trabalho, conta à Jazz Mansion suas inspirações e a trajetória até o single que nasce de uma poesia, e tem nome de origem iorubá



Numa dessa rolagens de timeline pelo twitter, tive a sorte de encontrar um pedido de um jovem cantor divulgando seu single. O olhar mais apurado, de quem já escreve e busca todos os dias por personagens e artistas envolvidos com o jazz, já me fizeram correr logo para conversar com ele e dizer que eu tinha aqui um espaço para conhecê-lo e fazer com que mais pessoas o conhecessem também.


Seu nome é Cayuma. Nascido e criado na Baixada Fluminense, seu currículo de cargos é extenso: ele é cantor, compositor, musico instrumentista, regente, professor de canto em um coral da Comunidade de Manguinhos e no meio disso tudo ainda faz licenciatura em Música, com habilitação em Canto, na UFRJ.


Seus primeiros contatos com a arte, ainda quando criança, foram por volta dos 8 anos, quando conheceu o teatro; mas naquela época ele ainda achava que "não era muito sua coisa". Nas transições de criança a pré-adolescencia, Cayuma entrou em um grupo de dança com o irmão, fez apresentações pelo bairro aonde morava e uma amizade o fez ter um dos primeiros contatos mais marcantes com a música, e que podemos até dizer como decisivo para sua vida.


Um de seus amigos o chamou para tocar na igreja e o pastor, que hoje é seu amigo também, viu que ele levava jeito para tocar teclado, o incentivou a estudar mais o instrumento em centro comunitário, mas infelizmente o local fechou e ele precisou ativar seu modo autodidata, continuando a aprender sozinho com a internet. Do teclado na igreja ao estudo de piano clássico no Instituto Vila Lobos, o músico começou a ter no local maior contato com música clássica e o jazz, bem como conheceu outros músicos, e a partir daí teve o 'boom', descrito por ele como o momento em que entendeu que "encontrou a sua parada".


"Vendo professores, regentes e diretores de música, comecei a ver que era possível trabalhar com isso, e foi o que de fato me deu o impulso para falar: 'caramba, é isso que eu quero ser, e se não for pro palco, é pra sala de aula, pra ser professor de música!' Ali foi onde eu vi que é possível da paixão, que eu já tinha dentro de mim, trabalhar com ela também, ganhar dinheiro e fazer disso uma profissão."





A música na Baixada


Antes de viver tudo isso, Cayuma já tinha ouvido de um tudo, principalmente o funk, o pagode e a musica gospel, referências musicais que ele cresceu ouvindo na Baixada. No meio disso tudo, ele nos contou que "por irônia do destino" um cd da Elis Regina parou na mão dele. Sua mãe, empregada doméstica, trouxe um box com dois cds da Elis de presente. Ele colocou para ouvir, ficou apaixonado e aquele cd o fez ir para o computador pesquisar sobre música brasileira. Ao som de Velha Roupa Colorida e Atrás da Porta, o seu despertar para a música nasceu, "foi quando eu comecei a reparar em música, a analisar e ficar viajando com as harmonias, com as letras, com a forma que a letra cantava a melodia".


Depois desse encontro com a Pimentinha e de ter sido jogado para dentro da música brasileira, Cayuma teve um grande contato com a música gospel, o soul, o jazz e o spiritual na igreja que começou a frequentar. As improvisações vocais e melismas desses gêneros, quase que misturados entre um culto e outro, o jogaram também o para um novo universo a ser explorado: a música afroamericana.



Os primeiros passos


Quando começou a se enxergar como artista, Cayuma passou a produzir sua arte para o outro e foi assim que fez seus primeiros festivais escolares, barzinhos, quando percebeu já estava tocando em alguns festivais na cidade. De forma natural, o artista nasceu. Ainda na baixada, participou de sarais, rodas culturais e foi indicado a prêmios nos festivais por onde passava com seu repertório recheado, mas sempre trazendo seu som autoral.


Já na faculdade, conheceu um amigo que o apresentou a um outro colega, um artista, e foi convidado para dirigir a parte musical do show dele. Essa oportunidade, abriu uma porta da qual ele não esperava: foi convidado por um banda para fazer percussão e vocal, dessa vez, no palco favela do Rock In Rio.


"Eu nunca tinha pisado da cidade do rock foi quase como uma coroação de tudo o que eu tinha vivido!"


Seu time de referências


Cayuma se define como um pesquisador musical. Não destaca os artistas que ouve, mas abrange suas referências aos diversos ritmos que passaram pela sua trajetória e pontua que toda música brasileira é afrobrasileira. Escutando música do mundo todo, do oriente médio até os hits virais das redes, ele mergulha nessas trilhas e conta que tudo isso acaba o influenciando.


Inevitávelmente, perguntei onde o jazz se encontrava nele e se ele tem alguma referência de jazz na vida. O resultado é que não faltou Jonh Coltrane, Ella Fitzgerald e outros nomes que passaram pelo repertório de inspirações de Cayuma.


"Quando eu entrei para a Villa Lobos, eu conheci outros músicos e comecei ali a criar minhas curiosidades sobre música. Tive um professor de teclado e piano popular que tocava todos os standarts possíveis! Eu não conhecia muito, né? Eu comecei a estudar e da mesma forma que a Elis me fez entrar pra música brasileira, e conhecer todos os compositores, a minha entrada nessa escola e o repertório que a gente trabalhava lá de vez em quando, me fez entrar pelo caminho do jazz e escutar tudo. Desde Coltrane, com o lance instrumental, até Ella, que é a maior referência de improvisação e de voz. Tem também Billie Holiday, Sara Vaughman e uma série de outros cantores que eu gosto muito de jazz. E isso me influenciou muito, muito. Tanto na questão vocal, na técnica, quanto na criação das melodias, com o lance de improvisação. Eu me considero um músico de improvisação. Graças a Deus, sou da era da internet! Então, eu tive como ir catando as coisas e gravações de 'trocentos' anos atrás e tentava achar ali alguma coisa que me encantasse. Embora tudo que era do jazz me encanta muito até hoje!", conta Cayuma.


Cayuma em estúdio para gravar seu single

Abayomi quer dizer aquele que traz felicidade


De uma poesia nasceu Abayomi. Escrtia pelo seu amigo Átomo, Cayuma conta que ficou muito encantado com o nome quando leu, tanto que lia e relia constantemente. "O Átomo, além de poeta, é rapper também. Creio que por causa disso, esse texto se torne super rmusical, super ritmado. Esse nome mexeu comigo e ficou na minha cabeça. Eu sabia que alguma hora eu ia escrever alguma coisa!"


Em um desses passeios musicais pela internet, ele encontrou um beat com uma levada que o lembrava do samba e a partir daí ele teve algumas ideias melódicas, que fizeram surgir Abayomi. Não era ainda o que o músico queria, era um beat R&B, mas alguma coisa trazia sua memória ao samba. Assim surge a sua mistura que conversou muito bem e que ele particularmente chama de R&B Tropical.


"A minha ideia era fazer com que o meu R&B fosse um R&B com o cara do Brasil! Abayomi é uma palavra da língua iorubá e significa também 'um encontro precioso'. Eu acho que tudo que essa música fez foi de fato um encontro precioso. Tanto da forma como eu comecei a produzir ela, das referências que eu usei, os encontros rítmicos que eu causei com essa música, que mistura bastante coisa, a forma com que eu encontrei o produtor, a forma em que eu fiz a capa, tudo foi transpassado por essa linguagem dos encontros, coisas que aconteceram muito de forma espontânea. Assim nasce Abayomi, essa série de encontros preciosos que eu tive por causa dessa música e dentro dessa música".



Um 'Q' de Djavan


A produção e a gravação do single foram quase todas feitas a distância, por conta da pandemia, mas toda a direção passou pelo cuidado do músico e do produtor Ariel. Cayuma conta que quando recebeu a primeira guia do estudio, colocou sua mãe para ouvir e ela perguntou "mas essa música não é do Djavan?". Mesmo não sendo musicista, a mãe do artista foi certeira no comentário e o fez sentir de fato essa proximidade da canção com a referência trazida.


Eu sinto que Abayomi me tem muito de Djavan e eu acho que é um uma das melodias que Djavan cantaria.

"Ouvia bastante um cara na época (de produção do single), chamado Mac Ayres, um cantor de pop, que tem bem essa pegada do R&B meio 'noturno'. Eu tive bastante influência tanto de uma música muito específica dele, chamada Calvin's Joint, como de Cigano, do Djavan. Eu acho que são os dois artistas e as duas músicas, que tanto na estrutura rítmica, como na estrutura de arranjo, me influenciaram bastante", destacou pra gente o músico carioca.



O jazz atravessado no single


Para quem ouve jazz e vai ouvir a música do Cayuma, vai sentir bastante que ele é um músico influenciado pelo jazz, tanto na melodia, quanto na técnica. "Em Abayomi, o jazz se manifestou justamente porque ele é um gênero que se misturou pra chegar no que ele é hoje; o jazz se modificou com as influências que tinham na hora. Eu fiz isso também! Peguei o que eu sentia na hora ali e misturei, mesmo que não fizesse tanto sentido naquele momento, mas eu quis misturar e quis ver o que que dava naquele processo de criação de arranjo, e só quis desfrutar dessa mistura. Acho que o jazz se manifesta estruturalmente nisso, no arranjo e nessa mistura de 'coisas'. Mas ele também vai nos improvisos que eu fiz na música e nas melodias".


O single Abayomi está disponível nas plataformas digitais. Clique aqui e acesse o streaming de sua preferência para ouvir.




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