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Jazz é música
de elevador?

Pequeno guia pra
começar no jazz
Nina Simone ao microfone, em recorte de colagem Por Dennis Vianêz Role para começar ↓
01

Você
gosta,

Mas não entende

Se você é aquela pessoa que curte jazz mas acha que não entende, você não está sozinho.

O primeiro passo você já deu quando sentiu algo diferente ouvindo jazz. Este guia é o segundo. Em treze capítulos curtos, você vai saber de onde ele veio, como ouvir, por onde começar e onde escutar ao vivo.

Gramofone antigo em recorte

Antes de tudo, três mitos. Toque nos cartões.

02

Quem

começou?

O jazz nasceu em New Orleans, por volta de 1900, na mistura de tudo o que passava por aquele porto. Foi um dos primeiros gêneros a quebrar as regras da música e a se espalhar pelo mundo. E nasceu nas mãos de músicos negros, filhos e netos de pessoas escravizadas.

Blues

O canto de dor e de resistência dos negros do sul dos Estados Unidos. Deu ao jazz a alma e a "nota triste".

Ragtime

O piano sincopado de Scott Joplin, que fazia o ritmo tropeçar de propósito.

Bandas de metais

As brass bands dos desfiles e funerais de New Orleans, que tocam na rua até hoje.

Ritmos africanos e caribenhos

Na Congo Square, aos domingos, pessoas escravizadas se reuniam para tocar e dançar. A cidade era um porto aberto ao Caribe.

A banda de Buddy Bolden por volta de 1905. Bolden, circulado em vermelho, segura a corneta em pé.
A banda de Buddy Bolden, por volta de 1905. Ele está em pé, circulado. É a única foto conhecida dele.
  1. c. 1900Buddy Bolden toca em New Orleans

    Cornetista, tocava tão alto que, dizem, se ouvia do outro lado do rio. Nunca gravou um disco. A única foto conhecida dele com a banda é esta.

  2. 1917O primeiro disco de jazz

    A Original Dixieland Jass Band, um grupo de músicos brancos, grava o primeiro disco do gênero. A música que tinha nascido nas mãos de músicos negros chegava ao disco por outros.

  3. 1920sO jazz sobe o rio

    Com a migração para o norte, o jazz chega a Chicago e Nova York. Louis Armstrong vira a primeira grande estrela do solo.

Duke Ellington ao piano, de chapéu, em recorte
03

Jazz é

improviso

O jazz é construído na improvisação, e essa é a parte mais mágica. Cada apresentação é única e não vai se repetir nunca mais.

Os músicos combinam a música, a harmonia e a ordem dos solos. O resto é criado ali, na hora, na sua frente.

Não é decorado. Eles estão conversando entre si, ao vivo, através dos instrumentos.

04

Como

ouvir jazz

Quase toda música de jazz segue o mesmo caminho. Quando você conhece o mapa, nunca mais se perde no meio do solo.

Quem é quem na banda. Escolha um instrumento.

Trompete

Costuma apresentar o tema, a melodia que você vai reconhecer. Também é o solista mais brilhante do grupo.

Para escutar: Miles Davis em "So What": poucas notas, muito espaço.

Ouvir no Spotify

Saxofone

Divide o tema com o trompete e faz solos longos, que contam uma história do começo ao fim.

Para escutar: John Coltrane em "Giant Steps": as notas vêm em cascata.

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Piano

Faz os acordes por trás dos solistas, o que os músicos chamam de "comping". Quando sola, vira uma orquestra inteira.

Para escutar: Bill Evans em "Blue in Green": parece que o tempo desacelera.

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Contrabaixo

É o chão. Anda uma nota por tempo, o famoso "walking bass", e segura a harmonia e o ritmo ao mesmo tempo.

Para escutar: Charles Mingus em "Haitian Fight Song": o baixo vira protagonista.

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Bateria

Marca o swing no prato de condução e conversa com os solistas. Responde, provoca, empurra.

Para escutar: Art Blakey em "Moanin'": a bateria dá o empurrão em cada solo.

Ouvir no Spotify

Exercício: na próxima música, escolha um instrumento e siga só ele do começo ao fim. Depois ouça de novo seguindo outro. É outra música.

05

120 anos

em 10 paradas

Arraste para o lado. Cada parada tem uma música para você ouvir e sentir a diferença de uma época para a outra.

1900 New Orleans

Polifonia coletiva: trompete, clarinete e trombone improvisando juntos, ao mesmo tempo.

King Oliver's Creole Jazz Band, "Dippermouth Blues" (1923) Ouvir
1920 Hot jazz

Nasce o solista. Louis Armstrong mostra que um improviso pode ser a parte mais importante da música.

Louis Armstrong and His Hot Five, "West End Blues" (1928) Ouvir
1930 Swing

As big bands enchem os salões. O jazz vira a música pop da época e todo mundo dança.

Count Basie, "One O'Clock Jump" (1937) Ouvir
1940 Bebop

Música rápida e difícil, feita para ouvir, não para dançar. Charlie Parker e Dizzy Gillespie mudam as regras.

Charlie Parker, "Ko-Ko" (1945) Ouvir
1950 Cool e hard bop

De um lado, o jazz calmo da costa oeste. Do outro, o jazz com raiz no gospel e no blues de Nova York.

Art Blakey & The Jazz Messengers, "Moanin'" (1958) Ouvir
1959 Modal

Menos acordes, mais espaço para criar. O ano em que saíram "Kind of Blue", "Time Out" e "Mingus Ah Um".

Miles Davis, "So What" (1959) Ouvir
1960 Free e espiritual

Ornette Coleman solta as amarras. Coltrane transforma o jazz em oração.

John Coltrane, "A Love Supreme" (1965) Ouvir
1970 Fusion

Guitarra elétrica, sintetizador e groove de funk. O jazz encontra o rock.

Herbie Hancock, "Chameleon" (1973) Ouvir
1990 Jazz e hip hop

O rap descobre os discos de jazz e faz deles samples. Ron Carter toca baixo num disco do A Tribe Called Quest.

A Tribe Called Quest, "The Low End Theory" (1991) Ouvir
Hoje Sem fronteiras

Jazz com orquestra e coro, com hip hop, com afrobeat, com eletrônica. O gênero virou uma forma de tocar qualquer coisa.

Kamasi Washington, "The Epic" (2015) Ouvir
06

A base

Seis nomes para começar. Se você conhecer esses, já entende de onde vem quase tudo o que veio depois.

Louis Armstrong

Cresceu em New Orleans ouvindo o eco de Bolden. Inventou o solo como a gente conhece e cantava com aquela voz rouca que você reconhece de longe.

Você conhece a voz dele de "What a Wonderful World".

Duke Ellington

Pianista e líder de orquestra por quase cinquenta anos. Escrevia pensando no som de cada músico da banda.

Dono do meu jazz favorito, "In a Sentimental Mood". Ouça a versão com John Coltrane, de 1963.

Billie Holiday

Cantava atrás do tempo, como quem conversa. Transformava qualquer canção numa confissão.

Era a cantora favorita da Amy Winehouse. "Strange Fruit", de 1939, é uma das canções de protesto mais fortes do século.

Miles Davis

Trompetista que reinventou o jazz umas cinco vezes: bebop, cool, modal, fusion. Cada fase virou escola.

"Kind of Blue", de 1959, é um dos discos de jazz mais vendidos da história.

John Coltrane

Revolucionou o saxofone. Tocava como se quisesse dizer tudo de uma vez, e depois foi atrás do silêncio.

Virou santo: em São Francisco existe a Saint John Coltrane Church.

Nina Simone

Pianista de formação clássica, cantora e voz dos direitos civis. Misturava Bach, gospel, blues e jazz.

Meu álbum favorito é dela: o show em Montreux, em 1976.

Recortes de Louis Armstrong, Duke Ellington, Billie Holiday, Miles Davis, John Coltrane e Nina Simone
07

O jazz

brasileiro

O Brasil conversa com o jazz há cem anos. E devolveu para o mundo a bossa nova, que mudou o próprio jazz.

Pixinguinha

Flautista e saxofonista, o mestre do choro. Nos anos 1920, levou os Oito Batutas para Paris e voltou com a cabeça cheia de jazz.

Johnny Alf

Pianista que juntou samba e harmonia de jazz antes de existir o nome bossa nova. Tom Jobim e João Gilberto iam vê-lo tocar.

Tom Jobim e João Gilberto

Com o saxofonista Stan Getz, gravaram "Getz/Gilberto", de 1964. Foi o primeiro disco de jazz a ganhar o Grammy de álbum do ano.

Moacir Santos

Maestro pernambucano, professor de meio mundo. As "Coisas", de 1965, juntam afro-brasilidade e big band.

Hermeto Pascoal

O "bruxo". Faz música com qualquer coisa: chaleira, brinquedo, a fala das pessoas. Já gravou até com porcos no estúdio.

Amaro Freitas

Pianista do Recife que vem definindo uma nova era do jazz brasileiro, com o ritmo do frevo e do maracatu nas mãos.

08

E o jazz

hoje?

O jazz está vivo, jovem e misturado com tudo. Esses são os nomes que fazem a cena agora.

Kamasi Washington

Saxofonista que faz jazz em escala épica, com coro e orquestra. Definitivamente meu favorito.

Robert Glasper

Pianista que abriu a porta entre o jazz, o R&B e o hip hop. "Black Radio", de 2012, é o mapa dessa ponte.

Amaro Freitas

Pernambucano que vem definindo uma nova era no jazz brasileiro. Toca o piano como quem toca percussão.

Jon Batiste

Multi-instrumentista muito popular. Já viu "Soul", da Pixar? É ele que toca o piano do Joe.

Esperanza Spalding

Canta e toca contrabaixo ao mesmo tempo, o que é bem mais difícil do que parece. Um primor no palco.

Fotos de Kamasi Washington, Robert Glasper, Amaro Freitas, Jon Batiste, Esperanza Spalding e Nubya Garcia
09

O jazz

pelo mundo

O jazz nasceu americano e virou idioma do mundo. Cada lugar fala com o seu sotaque.

JapãoHiromi Uehara

Pianista super virtuosa. Tocou na abertura das Olimpíadas de Tóquio.

Bélgica e FrançaDjango Reinhardt

Perdeu o movimento de dois dedos da mão esquerda num incêndio e inventou uma técnica nova para continuar tocando violão.

Reino UnidoJacob Collier

Começou gravando sozinho no quarto de casa. Nos shows, rege a plateia como um coral, e é mágico.

NigériaFela Kuti

Misturou jazz, funk e resistência política e criou o afrobeat.

Líbano e FrançaIbrahim Maalouf

Toca um trompete com um quarto pistão, criado pelo pai, que alcança os microtons da música árabe.

EtiópiaMulatu Astatke

O pai do ethio-jazz. Você talvez já tenha ouvido no filme "Flores Partidas", de Jim Jarmusch.

Recortes de Ibrahim Maalouf, Hiromi Uehara, Django Reinhardt, Jacob Collier, Fela Kuti e Mulatu Astatke
10

10 discos

pra começar
0 de 10 ouvidos

Marque os que você já ouviu. A lista fica guardada no seu navegador para você voltar depois.

Kind of BlueMiles Davis1959

O disco mais fácil de amar. Calmo, bonito e cheio de espaço.

Ouvir
Time OutDave Brubeck Quartet1959

Tem "Take Five", aquela que você já ouviu em algum comercial.

Ouvir
Ella and LouisElla Fitzgerald e Louis Armstrong1956

Duas vozes que conversam. Disco para domingo de manhã.

Ouvir
Getz/GilbertoStan Getz e João Gilberto1964

A bossa nova encontra o jazz. Você vai se sentir em casa.

Ouvir
Mingus Ah UmCharles Mingus1959

Alegre, bagunçado, com gospel e blues. Jazz que dá vontade de bater palma.

Ouvir
A Love SupremeJohn Coltrane1965

Uma oração em quatro partes. Ouça de olhos fechados.

Ouvir
Live at Montreux 1976Nina Simone1976

Meu favorito. Nina no palco, inteira, sem filtro.

Ouvir
Head HuntersHerbie Hancock1973

Jazz com groove de funk. Para quem gosta de dançar.

Ouvir
Black RadioRobert Glasper Experiment2012

A ponte entre o jazz e o R&B. Porta de entrada perfeita para quem vem do hip hop.

Ouvir
The EpicKamasi Washington2015

Quase três horas de jazz com coro e orquestra. Comece por "Change of the Guard".

Ouvir

Bônus brasileiro "Coisas", de Moacir Santos (1965). Ouvir

11

Seu primeiro

show de jazz
  1. Aplauda os solos

    Terminou um solo? Pode aplaudir no meio da música. No jazz é normal, e o músico agradece.

  2. Escute o set

    Enquanto a banda toca, celular no silencioso e conversa baixa. No intervalo, fala à vontade.

  3. Chegue perto

    Quanto mais perto do palco, mais você vê a conversa entre os músicos: os olhares, os sorrisos, os sinais.

  4. Puxe papo no intervalo

    Músico de jazz adora conversar. Pergunte o nome daquela música. É assim que se descobre disco novo.

  5. Não precisa saber nada

    Ninguém vai te perguntar quem tocou com quem. Basta estar ali, ouvindo.

Glossário rápido

Standard

Uma música que todo músico de jazz conhece e toca, como "Autumn Leaves" ou "Summertime".

Chorus

Uma volta inteira na sequência de acordes do tema. "Ele tocou três chorus" quer dizer que solou três voltas.

Swing

Aquele balanço que faz o corpo querer mexer. É também o nome do estilo das big bands dos anos 1930.

Jam session

Encontro em que músicos que nem sempre se conhecem tocam juntos, de improviso.

Walking bass

O contrabaixo andando uma nota por tempo, como passos.

Scat

Cantar improvisando com sílabas sem sentido, como um instrumento. Ella Fitzgerald era a rainha.

Cozinha

Gíria brasileira para a base: contrabaixo, bateria e, às vezes, o piano.

Big band

Orquestra de jazz, com naipes de trompetes, trombones e saxofones.

12

Qual jazz é

a sua cara?
Pergunta 1 de 4

Que horas você quer ouvir?

Seu caminho

Começar a ouvir
Jazz de fim de noite

Você vai se apaixonar pelo jazz modal e pelas baladas. Comece por "Kind of Blue", do Miles Davis, e siga para Bill Evans e Chet Baker.

Jazz de pista

Seu lugar é o swing e as brass bands. Comece por "Ella and Louis" e depois procure as big bands de Count Basie. Ao vivo, o Toda Terça é a sua casa.

Jazz com batida

Você vai direto para a ponte entre jazz e hip hop. Comece por "Black Radio", do Robert Glasper, e depois "Head Hunters", do Herbie Hancock.

Jazz que arrepia

Você quer o jazz espiritual. Comece por "A Love Supreme", do Coltrane, e depois mergulhe em "The Epic", do Kamasi Washington.

Jazz com sotaque brasileiro

Seu caminho passa pela bossa e pelo samba-jazz. Comece por "Getz/Gilberto" e depois descubra Moacir Santos e Amaro Freitas.

13

Bora pro

terceiro passo?

Parabéns pelo segundo passo! Agora é hora de sair de casa e ver o jazz em ação. Ao vivo, tudo o que você leu aqui faz sentido em cinco minutos.

Público em volta de uma brass band no meio do salão, num evento da Jazz Mansion
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