Polifonia coletiva: trompete, clarinete e trombone improvisando juntos, ao mesmo tempo.
King Oliver's Creole Jazz Band, "Dippermouth Blues" (1923) OuvirVocê
gosta,
Mas não entende Se você é aquela pessoa que curte jazz mas acha que não entende, você não está sozinho.
O primeiro passo você já deu quando sentiu algo diferente ouvindo jazz. Este guia é o segundo. Em treze capítulos curtos, você vai saber de onde ele veio, como ouvir, por onde começar e onde escutar ao vivo.
Antes de tudo, três mitos. Toque nos cartões.
Quem
começou?O jazz nasceu em New Orleans, por volta de 1900, na mistura de tudo o que passava por aquele porto. Foi um dos primeiros gêneros a quebrar as regras da música e a se espalhar pelo mundo. E nasceu nas mãos de músicos negros, filhos e netos de pessoas escravizadas.
O canto de dor e de resistência dos negros do sul dos Estados Unidos. Deu ao jazz a alma e a "nota triste".
O piano sincopado de Scott Joplin, que fazia o ritmo tropeçar de propósito.
As brass bands dos desfiles e funerais de New Orleans, que tocam na rua até hoje.
Na Congo Square, aos domingos, pessoas escravizadas se reuniam para tocar e dançar. A cidade era um porto aberto ao Caribe.
- c. 1900Buddy Bolden toca em New Orleans
Cornetista, tocava tão alto que, dizem, se ouvia do outro lado do rio. Nunca gravou um disco. A única foto conhecida dele com a banda é esta.
- 1917O primeiro disco de jazz
A Original Dixieland Jass Band, um grupo de músicos brancos, grava o primeiro disco do gênero. A música que tinha nascido nas mãos de músicos negros chegava ao disco por outros.
- 1920sO jazz sobe o rio
Com a migração para o norte, o jazz chega a Chicago e Nova York. Louis Armstrong vira a primeira grande estrela do solo.
Jazz é
improvisoO jazz é construído na improvisação, e essa é a parte mais mágica. Cada apresentação é única e não vai se repetir nunca mais.
Os músicos combinam a música, a harmonia e a ordem dos solos. O resto é criado ali, na hora, na sua frente.
Não é decorado. Eles estão conversando entre si, ao vivo, através dos instrumentos.
Como
ouvir jazzQuase toda música de jazz segue o mesmo caminho. Quando você conhece o mapa, nunca mais se perde no meio do solo.
Quem é quem na banda. Escolha um instrumento.
Trompete
Costuma apresentar o tema, a melodia que você vai reconhecer. Também é o solista mais brilhante do grupo.
Para escutar: Miles Davis em "So What": poucas notas, muito espaço.
Ouvir no SpotifySaxofone
Divide o tema com o trompete e faz solos longos, que contam uma história do começo ao fim.
Para escutar: John Coltrane em "Giant Steps": as notas vêm em cascata.
Ouvir no SpotifyPiano
Faz os acordes por trás dos solistas, o que os músicos chamam de "comping". Quando sola, vira uma orquestra inteira.
Para escutar: Bill Evans em "Blue in Green": parece que o tempo desacelera.
Ouvir no SpotifyContrabaixo
É o chão. Anda uma nota por tempo, o famoso "walking bass", e segura a harmonia e o ritmo ao mesmo tempo.
Para escutar: Charles Mingus em "Haitian Fight Song": o baixo vira protagonista.
Ouvir no SpotifyBateria
Marca o swing no prato de condução e conversa com os solistas. Responde, provoca, empurra.
Para escutar: Art Blakey em "Moanin'": a bateria dá o empurrão em cada solo.
Ouvir no SpotifyExercício: na próxima música, escolha um instrumento e siga só ele do começo ao fim. Depois ouça de novo seguindo outro. É outra música.
120 anos
em 10 paradasArraste para o lado. Cada parada tem uma música para você ouvir e sentir a diferença de uma época para a outra.
Nasce o solista. Louis Armstrong mostra que um improviso pode ser a parte mais importante da música.
Louis Armstrong and His Hot Five, "West End Blues" (1928) OuvirAs big bands enchem os salões. O jazz vira a música pop da época e todo mundo dança.
Count Basie, "One O'Clock Jump" (1937) OuvirMúsica rápida e difícil, feita para ouvir, não para dançar. Charlie Parker e Dizzy Gillespie mudam as regras.
Charlie Parker, "Ko-Ko" (1945) OuvirDe um lado, o jazz calmo da costa oeste. Do outro, o jazz com raiz no gospel e no blues de Nova York.
Art Blakey & The Jazz Messengers, "Moanin'" (1958) OuvirMenos acordes, mais espaço para criar. O ano em que saíram "Kind of Blue", "Time Out" e "Mingus Ah Um".
Miles Davis, "So What" (1959) OuvirOrnette Coleman solta as amarras. Coltrane transforma o jazz em oração.
John Coltrane, "A Love Supreme" (1965) OuvirGuitarra elétrica, sintetizador e groove de funk. O jazz encontra o rock.
Herbie Hancock, "Chameleon" (1973) OuvirO rap descobre os discos de jazz e faz deles samples. Ron Carter toca baixo num disco do A Tribe Called Quest.
A Tribe Called Quest, "The Low End Theory" (1991) OuvirJazz com orquestra e coro, com hip hop, com afrobeat, com eletrônica. O gênero virou uma forma de tocar qualquer coisa.
Kamasi Washington, "The Epic" (2015) OuvirA base
Seis nomes para começar. Se você conhecer esses, já entende de onde vem quase tudo o que veio depois.
Louis Armstrong
Cresceu em New Orleans ouvindo o eco de Bolden. Inventou o solo como a gente conhece e cantava com aquela voz rouca que você reconhece de longe.
Você conhece a voz dele de "What a Wonderful World".
Duke Ellington
Pianista e líder de orquestra por quase cinquenta anos. Escrevia pensando no som de cada músico da banda.
Dono do meu jazz favorito, "In a Sentimental Mood". Ouça a versão com John Coltrane, de 1963.
Billie Holiday
Cantava atrás do tempo, como quem conversa. Transformava qualquer canção numa confissão.
Era a cantora favorita da Amy Winehouse. "Strange Fruit", de 1939, é uma das canções de protesto mais fortes do século.
Miles Davis
Trompetista que reinventou o jazz umas cinco vezes: bebop, cool, modal, fusion. Cada fase virou escola.
"Kind of Blue", de 1959, é um dos discos de jazz mais vendidos da história.
John Coltrane
Revolucionou o saxofone. Tocava como se quisesse dizer tudo de uma vez, e depois foi atrás do silêncio.
Virou santo: em São Francisco existe a Saint John Coltrane Church.
Nina Simone
Pianista de formação clássica, cantora e voz dos direitos civis. Misturava Bach, gospel, blues e jazz.
Meu álbum favorito é dela: o show em Montreux, em 1976.
O jazz
brasileiroO Brasil conversa com o jazz há cem anos. E devolveu para o mundo a bossa nova, que mudou o próprio jazz.
Pixinguinha
Flautista e saxofonista, o mestre do choro. Nos anos 1920, levou os Oito Batutas para Paris e voltou com a cabeça cheia de jazz.
Johnny Alf
Pianista que juntou samba e harmonia de jazz antes de existir o nome bossa nova. Tom Jobim e João Gilberto iam vê-lo tocar.
Tom Jobim e João Gilberto
Com o saxofonista Stan Getz, gravaram "Getz/Gilberto", de 1964. Foi o primeiro disco de jazz a ganhar o Grammy de álbum do ano.
Moacir Santos
Maestro pernambucano, professor de meio mundo. As "Coisas", de 1965, juntam afro-brasilidade e big band.
Hermeto Pascoal
O "bruxo". Faz música com qualquer coisa: chaleira, brinquedo, a fala das pessoas. Já gravou até com porcos no estúdio.
Amaro Freitas
Pianista do Recife que vem definindo uma nova era do jazz brasileiro, com o ritmo do frevo e do maracatu nas mãos.
E o jazz
hoje?O jazz está vivo, jovem e misturado com tudo. Esses são os nomes que fazem a cena agora.
Kamasi Washington
Saxofonista que faz jazz em escala épica, com coro e orquestra. Definitivamente meu favorito.
Robert Glasper
Pianista que abriu a porta entre o jazz, o R&B e o hip hop. "Black Radio", de 2012, é o mapa dessa ponte.
Amaro Freitas
Pernambucano que vem definindo uma nova era no jazz brasileiro. Toca o piano como quem toca percussão.
Jon Batiste
Multi-instrumentista muito popular. Já viu "Soul", da Pixar? É ele que toca o piano do Joe.
Esperanza Spalding
Canta e toca contrabaixo ao mesmo tempo, o que é bem mais difícil do que parece. Um primor no palco.
Nubya Garcia
Saxofonista de Londres, referência da cena britânica que mistura jazz com dub e cúmbia.
O jazz
pelo mundoO jazz nasceu americano e virou idioma do mundo. Cada lugar fala com o seu sotaque.
JapãoHiromi Uehara
Pianista super virtuosa. Tocou na abertura das Olimpíadas de Tóquio.
Bélgica e FrançaDjango Reinhardt
Perdeu o movimento de dois dedos da mão esquerda num incêndio e inventou uma técnica nova para continuar tocando violão.
Reino UnidoJacob Collier
Começou gravando sozinho no quarto de casa. Nos shows, rege a plateia como um coral, e é mágico.
NigériaFela Kuti
Misturou jazz, funk e resistência política e criou o afrobeat.
Líbano e FrançaIbrahim Maalouf
Toca um trompete com um quarto pistão, criado pelo pai, que alcança os microtons da música árabe.
EtiópiaMulatu Astatke
O pai do ethio-jazz. Você talvez já tenha ouvido no filme "Flores Partidas", de Jim Jarmusch.
10 discos
pra começarMarque os que você já ouviu. A lista fica guardada no seu navegador para você voltar depois.
Tem "Take Five", aquela que você já ouviu em algum comercial.
OuvirDuas vozes que conversam. Disco para domingo de manhã.
OuvirA bossa nova encontra o jazz. Você vai se sentir em casa.
OuvirAlegre, bagunçado, com gospel e blues. Jazz que dá vontade de bater palma.
OuvirA ponte entre o jazz e o R&B. Porta de entrada perfeita para quem vem do hip hop.
OuvirQuase três horas de jazz com coro e orquestra. Comece por "Change of the Guard".
OuvirBônus brasileiro "Coisas", de Moacir Santos (1965). Ouvir
Seu primeiro
show de jazz- Aplauda os solos
Terminou um solo? Pode aplaudir no meio da música. No jazz é normal, e o músico agradece.
- Escute o set
Enquanto a banda toca, celular no silencioso e conversa baixa. No intervalo, fala à vontade.
- Chegue perto
Quanto mais perto do palco, mais você vê a conversa entre os músicos: os olhares, os sorrisos, os sinais.
- Puxe papo no intervalo
Músico de jazz adora conversar. Pergunte o nome daquela música. É assim que se descobre disco novo.
- Não precisa saber nada
Ninguém vai te perguntar quem tocou com quem. Basta estar ali, ouvindo.
Glossário rápido
Standard
Uma música que todo músico de jazz conhece e toca, como "Autumn Leaves" ou "Summertime".
Chorus
Uma volta inteira na sequência de acordes do tema. "Ele tocou três chorus" quer dizer que solou três voltas.
Swing
Aquele balanço que faz o corpo querer mexer. É também o nome do estilo das big bands dos anos 1930.
Jam session
Encontro em que músicos que nem sempre se conhecem tocam juntos, de improviso.
Walking bass
O contrabaixo andando uma nota por tempo, como passos.
Scat
Cantar improvisando com sílabas sem sentido, como um instrumento. Ella Fitzgerald era a rainha.
Cozinha
Gíria brasileira para a base: contrabaixo, bateria e, às vezes, o piano.
Big band
Orquestra de jazz, com naipes de trompetes, trombones e saxofones.
Qual jazz é
a sua cara?Que horas você quer ouvir?
Você vai se apaixonar pelo jazz modal e pelas baladas. Comece por "Kind of Blue", do Miles Davis, e siga para Bill Evans e Chet Baker.
Seu lugar é o swing e as brass bands. Comece por "Ella and Louis" e depois procure as big bands de Count Basie. Ao vivo, o Toda Terça é a sua casa.
Você vai direto para a ponte entre jazz e hip hop. Comece por "Black Radio", do Robert Glasper, e depois "Head Hunters", do Herbie Hancock.
Você quer o jazz espiritual. Comece por "A Love Supreme", do Coltrane, e depois mergulhe em "The Epic", do Kamasi Washington.
Seu caminho passa pela bossa e pelo samba-jazz. Comece por "Getz/Gilberto" e depois descubra Moacir Santos e Amaro Freitas.
Bora pro
terceiro passo?Parabéns pelo segundo passo! Agora é hora de sair de casa e ver o jazz em ação. Ao vivo, tudo o que você leu aqui faz sentido em cinco minutos.
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