Moacir Santos faria 100 anos: por que suas “Coisas” ainda abrem caminhos

Ana Nascimento / Agência Brasil / Wikimedia Commons · CC BY 3.0 br · Origem.
Dez peças. Nenhum título que entregue uma paisagem, um romance ou uma história. No primeiro álbum de Moacir Santos, as composições são “Coisas”, identificadas por números. O gesto parece discreto para uma música que ocupa tanto espaço.
Em 2026, ano do centenário do compositor nascido em 26 de julho de 1926 no Sertão pernambucano, voltar a esse disco é uma maneira de ultrapassar a homenagem protocolar. Moacir foi arranjador, professor e criador de uma linguagem que reuniu experiências brasileiras e diálogo com o jazz sem precisar escolher um lado da fronteira. Contexto do centenário.
Dez “Coisas” para escutar com atenção
Lançado pela Forma em 1965, Coisas reúne dez composições. O catálogo do Instituto Memória Musical Brasileira registra sessões de gravação entre 23 e 25 de março daquele ano, nos estúdios da RCA, e atribui a Moacir composição, arranjos e regência. A produção foi de Roberto Quartin.
Um detalhe ajuda a desmontar a ideia de uma sequência escolar: as peças não aparecem em ordem numérica no álbum. “Coisa nº 5”, conhecida como “Nanã”, também não nasceu como uma descoberta tardia do disco. Wilson Simonal já havia gravado a canção em 1964, informa a reportagem de Augusto Diniz sobre o centenário.
Os números, portanto, não tornam as músicas anônimas. Funcionam como um convite a conhecer sua organização antes de procurar uma narrativa pronta. Uma boa primeira audição pode começar por “Coisa nº 5” e seguir a ordem do próprio LP, sem a obrigação de decifrar tudo.
Um compositor que também pensava em imagens
A história de Moacir passa pelos estúdios de rádio, pelas salas de aula e pelo cinema. A biografia publicada pela Blue Note registra sua atuação na Rádio Nacional, no Rio, e a proximidade com músicos que viriam a marcar a música brasileira. Baden Powell, João Donato e Sérgio Mendes estão entre seus alunos.
O mesmo perfil destaca seu trabalho em filmes como Os Fuzis e Ganga Zumba. É uma pista para escutar sua escrita também como construção de cenas: instrumentos podem estabelecer ambientes, criar tensão e alterar a escala de uma passagem. Essa é uma proposta de audição, não uma afirmação de que cada “Coisa” descreva um episódio específico.
Em 1967, Moacir se mudou para os Estados Unidos. A passagem internacional gerou outros discos, entre eles The Maestro, de 1972, pela Blue Note. A viagem ampliou sua trajetória; não apaga a formação brasileira que havia tornado sua música singular. Trajetória e discografia.
O centenário acontece quando a obra volta a circular
A distância entre reconhecimento entre músicos e conhecimento pelo público aparece nas revisitas à sua produção. Ouro Negro, de 2001, produzido por Mário Adnet e Zé Nogueira, recolocou composições de Moacir em circulação com convidados de diferentes gerações.
Em janeiro de 2026, o João Marcondes Septeto lançou Now I Know, dedicado ao maestro. A notícia, registrada na reportagem de CartaCapital, oferece um caminho contemporâneo para quem quer ouvir como esse repertório continua sendo interpretado. As revisitas à obra.
Celebrar seus cem anos pode começar com uma tarefa pequena: reservar tempo para um álbum inteiro. Depois, comparar uma composição em duas versões e notar o que permanece quando mudam a formação e os intérpretes. Uma homenagem ganha outra dimensão quando o nome na efeméride vira música na rotina. As “Coisas” de Moacir continuam disponíveis para esse encontro.






