Mary Lou Williams transformou o zodíaco em retratos de jazz

William P. Gottlieb / Library of Congress; restauração: Adam Cuerden · Fotografia dedicada ao domínio público pelo autor; restaurador concede licença irrevogável de uso amplo na ficha. · Origem.
Áries, Touro, Gêmeos. Na obra de Mary Lou Williams, esses nomes podem ser portas de entrada para doze movimentos musicais. Zodiac Suite, criada em 1945, usou os signos como ponto de partida para homenagear amigos e colegas da compositora. O resultado interessa muito mais pelo que organiza em som do que por qualquer promessa sobre o destino.
O catálogo da Smithsonian Folkways preserva a gravação histórica e explica essa ligação entre música, personalidades e signos. A suíte oferece uma oportunidade de encontrar Williams no centro da criação: uma mulher que pensava em forma, arranjo e possibilidades para o jazz.
O piano como laboratório de retratos
Na gravação de 1945, Williams aparece ao piano, acompanhada pelo baixista Al Lucas e pelo baterista Jack Parker. A edição da Folkways permite percorrer os doze movimentos e, na reedição de 1995, ouvir tomadas alternativas. É uma documentação valiosa de uma obra que não cabe apenas na ideia de “um disco sobre astrologia”. Ficha e repertório.
Retratar uma pessoa com música envolve escolhas. Um contraste de andamento pode sugerir modos diferentes de agir; uma mudança de textura pode alterar o caráter de uma passagem. São possibilidades de interpretação para o ouvinte. Não devemos confundi-las com um código universal no qual cada signo teria, necessariamente, um som próprio.
O interesse está em como a compositora transformou uma associação pessoal numa estrutura de doze partes. Em vez de procurar se o movimento “combina” com seu aniversário, experimente observar o que muda de uma peça para a seguinte.
Uma obra que exigiu mais de uma formação
A suíte também encontrou o palco de concerto. A documentação histórica da Folkways registra a apresentação de uma versão para conjunto ampliado no Town Hall, em Nova York, em 1945, e de movimentos com orquestra no Carnegie Hall no ano seguinte. Notas históricas da edição.

Americasroof, da Wikipédia em inglês / Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0 · Origem.
Essa passagem não ocorreu sem dificuldades. Em entrevista à WRTI, em 2023, o pianista Aaron Diehl falou sobre a preparação da obra e os desafios de realizar sua escrita orquestral. O relato ajuda a enxergar a distância entre imaginar uma música e conseguir as condições para que ela seja ouvida. Entrevista de Nate Chinen com Diehl.
É justamente por isso que a história não deve ser reduzida a um selo de “primeira de todas”. A ambição de Williams pode ser reconhecida pelos registros, pelas partituras e pelas sucessivas interpretações, sem apagar outros compositores ou simplificar a cronologia.
O que uma nova gravação devolve ao passado
Diehl e o conjunto The Knights lançaram uma gravação de Zodiac Suite em 2023. O material educativo da Milwaukee Symphony Orchestra apresenta essa versão como uma forma de conhecer a obra e sua autora.
Aaron Diehl e The Knights interpretam “Leo”, de Zodiac Suite. O registro permite ouvir a escrita de Mary Lou Williams na formação de concerto citada no texto.
Vídeo indicado no site oficial de Aaron Diehl · Assistir no YouTube · Fonte da indicação
Comparar a formação histórica com uma leitura orquestral muda a escala da escuta. Uma linha antes concentrada no teclado pode encontrar outras cores; relações entre as partes ficam expostas de outro modo. A comparação vale como experiência, não como competição para escolher qual versão “corrige” a outra.
Um bom percurso começa com o álbum de 1945, passa pela história das apresentações e chega às interpretações recentes. A sequência revela que recuperar uma compositora não é apenas acrescentar seu nome a uma lista. É devolver tempo, palco e atenção às decisões que ela colocou na música. No caso de Mary Lou Williams, doze títulos conhecidos escondem uma obra que ainda tem muito a apresentar.






