Louis Armstrong e um blues sem palavras estão viajando pelo espaço

NASA / JPL-Caltech · Uso editorial informativo previsto na política de imagens da NASA; não equivale a autorização de endosso comercial. · Origem.
Se alguém encontrar uma das sondas Voyager e conseguir tocar o disco que ela carrega, poderá ouvir Louis Armstrong. E, pouco depois na seleção musical, uma guitarra acompanhada por uma voz que não precisa formular palavras: Blind Willie Johnson em “Dark Was the Night, Cold Was the Ground”.
As gravações fazem parte do Golden Record, o disco dourado enviado com as duas sondas em 1977. Jazz e blues integram, assim, uma das tentativas mais ambiciosas de transformar música em apresentação da humanidade. A seleção oficial da NASA pode ser consultada aqui.
Um cartão de visita que precisava de agulha
Não se trata de uma transmissão de rádio tocando continuamente pelo espaço. O som está registrado num objeto físico: um disco de cobre banhado a ouro, com 12 polegadas de diâmetro. O projeto inclui instruções de reprodução, uma agulha e informações para interpretar o conteúdo. Descrição do projeto.
Um comitê presidido por Carl Sagan organizou a mensagem. Além de música, o disco reúne sons da natureza, saudações em 55 idiomas e 115 imagens codificadas. A seleção musical ocupa aproximadamente 90 minutos. A escala já sugere a dificuldade: como condensar um planeta inteiro numa edição que caiba num disco? Conteúdo e preparação.
O suporte também muda a pergunta habitual de uma playlist. Não bastava escolher músicas que os organizadores apreciassem. Era preciso pensar que representação de um mundo seria construída por aquela sequência — e aceitar que qualquer escolha deixaria muito de fora.
Duas maneiras de dizer algo sem explicação
Na lista oficial, Armstrong aparece com o Hot Seven em “Melancholy Blues”, numa faixa de 3 minutos e 5 segundos. Blind Willie Johnson ocupa 3 minutos e 15 segundos com “Dark Was the Night, Cold Was the Ground”. O programa também inclui Bach, Beethoven, Chuck Berry e registros de diferentes tradições musicais. Faixas e durações.

William P. Gottlieb / Library of Congress / Wikimedia Commons · Domínio público · Origem.
Para um ouvinte humano, a escolha oferece uma comparação instigante. Podemos procurar como o conjunto organiza as entradas na gravação de Armstrong e, depois, deslocar a atenção para a relação entre voz e instrumento no blues de Johnson. O repertório não exige que todo encontro musical comece por uma tradução literal.
Isso não permite afirmar que outra forma de vida reconheceria tristeza, improvisação ou espiritualidade da mesma maneira. A experiência extraterrestre permanece uma hipótese. O que podemos conhecer é a decisão humana de incluir esses sons entre aquilo que merecia viajar.
Uma mensagem dirigida também a nós
Em um texto retrospectivo publicado pela NASA em 2007, integrantes do projeto enfatizaram tanto a pequena probabilidade de encontro quanto o significado da mensagem para os próprios habitantes da Terra. O disco funcionava como uma oportunidade de pensar o planeta em conjunto. A retrospectiva do Golden Record.
Essa leitura continua fértil sem transformar a missão em fantasia de contato iminente. Há algo revelador numa apresentação da humanidade que abre espaço para uma banda e para um blues: a ciência pode descrever nossa posição, enquanto a arte registra maneiras de existir nessa posição.
Vídeo da NASA JPL publicado em 2013, com mensagens à Voyager e participantes ligados ao projeto do disco dourado. Em inglês.
NASA JPL · Assistir no YouTube · Fonte da indicação
Para acompanhar a história, abra a lista oficial e faça sua própria escuta comparada de Armstrong, Johnson e uma terceira faixa de outra tradição. Depois imagine o problema dos curadores: se você pudesse enviar poucos minutos de música para representar a Terra, que parte do mundo conseguiria incluir — e que parte precisaria admitir que ainda faltava?






