• Leonardo Nery

Entenda a essência do jazz por meio do álbum "Kind of Blue" - Miles Davis

O Jazz não se trata sobre "tema e fritação" e sim sobre a arte de criar música pela improvisação, assim como é a vida. E, um dos maiores álbuns da história do Jazz "Kind of Blue" do Miles Davis é a prova disso.

Foto: Gravação do Kind Of Blue - Reprodução Web

Ninguém descreveu jazz melhor do que Bill Evans. Na época que fez parte do sexteto de Miles Davis, que hoje simboliza a epítome de toda a geração dos anos 60 do estilo, comparou jazz com uma espécie de arte visual japonesa feita com uma fina folha linho e tinta aquarela, na qual qualquer movimento não natural ou interrompido pode destruir toda a folha – não dá pra apagar os erros e fazer mudanças.


E ainda que esse pensamento não seja vocalizado (até literalmente, já que grande parte das músicas do estilo são instrumentais), é encampado por todos os lados. Kind of Blue (1959) do Miles Davis (do qual Evans participou) foi gravado em apenas dois dias; Giant Steps (1960) do Coltrane tomou apenas três dias nos estúdios. A título de comparação, Appetite for Destruction (1987), do Guns N’ Roses, levou pouco mais de seis meses para ser gravado. E isso não quer dizer nada além de que são dois estilos dinstintos, nos quais as coisas são feitas de maneira diferente.

Os álbuns de jazz dessa época foram gravados, em sua larga maioria, com todos os músicos na sala tocando ao mesmo tempo (nesse ponto vale a pena mencionar que no Youtube existem vários registros das sessões de gravação do Kind of Blue), imersos na mesma energia, em tempo real; os álbuns de rock são gravados em faixas separadas, cada músico gravando a sua linha de cada vez.


Daí nasce toda a beleza desse estilo musical: o jazz é composto em tempo real. É sincronia entre os músicos que estão no palco, na qual cada um se encontra no limite de sua criatividade artística. É saber apreciar o momento presente e nada mais, porque o que você ouve nunca mais vai voltar, nunca mais ninguém vai tocar igual. É mais que “um tema e uma fritação”, como já ouvi de uma ex-namorada.

Foto: Miles Davis e Bill Evans - Reprodução da Web

O improviso musical é uma invasão forte no âmago do músico. Com ele, você sabe se a pessoa está desconcentrada, se está melancólica ou agitada. Nas chamadas “baladas”, o sentimento que fica é de uma longa conversa, mesmo sem nenhuma palavra falada. Dá para conhecer como funciona a cabeça daquela pessoa que está tocando aquelas notas sem nem mesmo terem convivido no mesmo espaço e tempo.


Seria possível ficar falando por parágrafos e mais parágrafos sobre anedotas em que o espírito de improvisação do jazz é o centro. Daria para falar que a introdução de So What, que abre Kind of Blue do Miles, é uma criação espontânea de Paul Chambers enquanto tocavam a música das primeiras vezes. Daria para falar de Herbie Hancock que, em uma apresentação na Alemanha com o segundo sexteto de Miles, errou toda uma seção da música e foi acompanhado pelo resto do grupo, porque ninguém entre eles enxergou como um erro, mas sim como variação daquilo que eles vinham fazendo.


Por isso é que o jazz é igual a vida. Acontece em tempo real e, na verdade, estamos só improvisando. Algumas vezes é bonito e nos faz felizes, outras vezes nem tanto. O foco está no processo, que nos faz aprender na medida que vamos tocando a vida. Quando tudo é engessado e não tem abertura para flexibilizar, não acontece vida no momento presente, mas apenas uma imitação daquela vida que já foi.


Muito enganado quem diz que é um estilo em seus últimos respiros. Músicos modernos como Ambrose Akinmusire (em Origami Harvest, 2018), James Francies (em Flight, 2018), Robert Glasper (em In My Element, 2006, e Black Radio, 2012), Kendrick Scott Oracle (em A Wall Becomes a Bridge, 2019) e Esperanza Spalding (em Exposure, 2017) trazem uma nova lufada de ar, com influências no hip-hop e soul, para esse jazz que representa a vida em construção, improvisada na medida que vai andando.
Foto: Esperanza Spalding - Reprodução /Google Imagens

Em suma, não se trata de terças, nonas, décimas primeiras, inversões de acordes e arpejos sobrepostos. Deixe que os músicos se preocupem com isso. Cada um com o seu papel. O importante é ouvir e sentir, ser tocado pelo som. Nunca ficou tão claro quanto nos dias de hoje que a arte pode trazer sentimentos e nos tocar, nos movimentar mesmo dentro de nós mesmos e enclausurados em casa. Quem sabe alguém aproveite esse momento para descobrir (ou redescobrir!) um disco e ouvi-lo com atenção. Com atenção que ele merece.

Leonardo é advogado, músico e fotógrafo amador e obcecado por jazz desde criança.

Instagram: @oleonardogava

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