O baixista do Red Hot que ninguém conhecia
A história de um inusitado jazzista que o mundo não conhecia, o Dia Internacional do Jazz em São Paulo, e o melhor da semana em cultura.
Abertura por Dennis Vianêz

Tem um disco lançado em março que merece mais atenção do que está recebendo. Faz alguns dias que estou escutando e ele me pegou.
Não é porque é surpreendente que seja bom, mas porque a história por trás dele é o tipo de coisa que o jazz faz melhor do que qualquer outro gênero: revelar o que está escondido dentro do artista.
O disco se chama Honora. Quem fez é o Flea.
Sim, o Flea. Michael Balzary. O icônico baixista do Red Hot Chili Peppers. Um dos músicos mais reconhecíveis dos últimos 40 anos, cujo instrumento virou marca registrada de um som, de uma era, de uma banda inteira. O que a maioria não sabe é que o baixo foi um desvio.
Flea tinha 16 anos quando seu amigo Hillel Slovak pediu pra ele largar o trompete e tocar numa banda que estava começando. Ele foi. A banda virou o RHCP. O trompete ficou parado por 35 anos, enquanto ele se tornava lenda em outro instrumento.
Aos 59 anos, na metade de uma tour de estádios com o RHCP, com esposa e recém-nascido em casa, ele fez uma promessa: praticar trompete todo dia por dois anos. Ao fim dos dois anos, iria ao estúdio. Sem prazo, sem gravadora pressionando. Só a promessa.
Honora é o resultado disso.
O título é o nome da sua bisavó, que saiu da Irlanda na miséria e foi parar na Austrália. O disco foi gravado em fevereiro de 2025 no Sunset Sound, em Hollywood, e lançado em março de 2026 pela Nonesuch Records. Tem dez faixas, seis composições originais dele, e quatro covers que revelam muito sobre onde ele está: Frank Ocean, Funkadelic, Jimmy Webb e Ann Ronell.
O herói de referência aqui não é Miles Davis. É Clifford Brown. Isso importa. Clifford Brown representa um jazz melódico, lírico, com profundidade estrutural sem ornamento desnecessário.
Não é o cool, não é o avant-garde. É substância.
E o baixo? Está no disco. Em seis das dez faixas, Flea toca baixo elétrico além do trompete. Não é despedida de um instrumento, é uma conversa entre os dois. O The Guardian escreveu que o álbum "nunca é diletante, é sincero, exploratório e cheio de alma." O New York Times disse que as dez faixas "incorporam uma profunda melancolia."
A banda ao redor dele é dos melhores nomes do jazz contemporâneo: Jeff Parker, Anna Butterss, Deantoni Parks e Josh Johnson. Thom Yorke aparece em "Traffic Lights". Nick Cave canta "Wichita Lineman." E tem uma versão de "Maggot Brain", do Funkadelic, com o trompete no lugar da guitarra de Eddie Hazel.
E tudo isso com uma pitadinha de Red Hot Chilli Peppers que é possível sentir lá no fundo.
Vale ouvir do começo ao fim.
Dennis Vianêz • Idealizador Jazz Mansion
Também vale ouvir

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Alex Wintz, Collage (abril 2026): Jazz contemporâneo com groove e reflexão pessoal. Wintz captura aquele momento em que o músico encontra a própria voz, e a banda respira junto. Um dos lançamentos mais consistentes do mês.
O que fazer em SP

Janis, a exposição • MIS, a partir de 16 de abril: Não é exatamente "assistir", mas o MIS montou algo imersivo demais pra ignorar. São mais de 300 itens sobre Janis Joplin, figurinos, manuscritos, cenografia, direto de Los Angeles. Terças a entrada é gratuita. Se você nunca foi ao MIS com uma exposição assim, é hora.
Festival Jardim Secreto • Espaço São Luís, 25 e 26 de abril: Mais de 200 expositores de criações artísticas e independentes. Boa pedida pra quem quer sair de casa com calma antes da semana esquentar.
Agenda Jazz Mansion

Destaque • Jazz Sweet Jazz
Bourbon Street · Rua dos Chanés 127, Moema · 21h
Ingresso R$ 50 ou gratuito para membros do club
26/04 • Jazz Sweet Jazz, nosso evento que comemora o Dia Internacional do Jazz um pouco mais cedo, no dia 26 de abril. Bourbon Street. Uma tarde especial ao ar livre em Moema. O evento recebe o grupo carioca Sweet Jazz pra celebrar a data que é nossa por definição. Line-up especial, a casa que a gente chama de casa, e um clima que só acontece quando a noite tem intenção. Garante o seu ingresso agora pelo link abaixo antes de esgotar.
Toda Terça Um Jazz
Bourbon Street · Moema · 19h30
Ingresso R$ 50 ou gratuito para membros do club
28/04 • Afro Latin Blues – Adriano Grineberg: Um encontro potente entre blues e ritmos afro-latinos, onde o piano de Adriano Grineberg conduz uma experiência pulsante, conectando Brasil, Caribe e o sul dos Estados Unidos em uma sonoridade intensa e contemporânea.
Caju Jazz Nights
Bar Caju, JW Marriott SP · 20h00
Grátis, 50 lugares, sujeito à lotação
16/04 • Beatles In Jazz – Blues Experiência: Uma leitura criativa que revela a influência do blues nas composições dos Beatles, conectando o universo da banda ao improviso jazzístico.
23/04 • Especial Djavan – Jayv + Daniel Cruz: Um encontro que explora a riqueza harmônica e o lirismo de Djavan em versões sofisticadas e cheias de identidade.
30/04 • Boogaloos, Bossas & Calypsos – Marcelo Cotarelli Quarteto: Um tributo a Lee Morgan e à fase em que o jazz se funde com ritmos afro-latinos, criando grooves envolventes e dançantes.
50 lugares por noite.
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